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Memórias vivas – Conservação cultural é eternizada por pioneiros

Após a primeira guerra
mundial, a Europa e principalmente a Alemanha, passava por uma grande crise
econômica, o que incentivou a população a buscar novas oportunidades em outros
países, incluindo o Brasil. A região Sul recebeu milhares de imigrantes na
década de 1920, centenas deles desembarcando no Rio Grande do Sul e abraçando a
oportunidade de colonizar as terras do Extremo-Oeste de Santa Catarina. Porto
Feliz, ou Mondaí, se tornou a porta de entrada para a colonização regional e
acolheu as famílias germânicas, italianas, romenas e caboclas, onde formaram
colônias de preservação de suas culturas e hábitos.

Como é o exemplo da
família de Lydia Lehrbach, de 101 anos, residente em Mondaí, que chegou ao País
aos 9 anos de idade, junto de seus pais e mais três irmãos. Natural da Romênia,
a família viu na colonização de Mondaí uma oportunidade de construir uma vida
melhor, conforme explica Lydia. “Quando chegamos aqui, meu pai gostou muito das
terras do Brasil e comprou logo duas colônias. Mas nós, crianças, não gostamos,
queríamos voltar. Ele dizia para a gente “meus filhos, agora não está fácil,
mas vai melhorar” e como ele falou que ia melhorar, tudo melhorou”, lembra.

A fé que fez com que a
família atravessasse o oceano em busca de épocas melhores, guiou pais e filhos
nas escolhas feitas nesta terra. Ao chegar em Porto Feliz, Lydia e seus irmãos
foram à escola e continuaram aprendendo na língua da colônia onde morava. “Fui
na escola aqui, mas tínhamos mais alemão do que português, tanto que eu aprendi
a falar português com os meus filhos, não na escola. Os professores eram
alemães, porque quase todos eram alemães aqui”, relembra, afirmando a cultura
que foi mantida nas colônias alemãs.

Ao lembrar da infância e
da chegada ao país, Lydia destaca algo marcante: o frio. Embora na Europa o
frio seja intenso, com a região já bem desenvolvida, havia disponibilidade de
roupas e acessórios para enfrentar esses períodos. “Naquele tempo, não tinha
nada para comprar nas vendas. A minha mãe trouxe roupa de lá, mas não servia
para sempre, a criança cresce né, então no frio, quando não tínhamos mais roupa
quente, a mãe fazia roupa para nós das roupas dela, porque não tinha para
comprar. Foi um período muito difícil”, destaca a pioneira.

A evolução chegou aos
poucos em Porto Feliz, com a coragem dos desbravadores foram sendo construídas
estradas, igrejas, escolas e as conquistas foram chegando como a:  energia Elétrica, automóveis, disponibilidade
de comida e tecidos nas vendas. “Não tinha energia no começo, não era fácil.
Quando o pai tinha muitos porcos e carneava um para ter banha e carne, a gente
preservava as carnes na banha para não estragar, era a nossa geladeira. Ninguém
tinha automóveis, a gente ia caminhando ou a cavalo. Tinha um homem que viajava
e trazia comida para as pessoas, para vender nos mercados, arroz, farinha, sal,
tudo o que precisa. Como as estradas não eram boas, demorava para voltar,
passavam dias para chegar, muita gente já não tinha mais comida, então a gente
esperava até ele chegar. Conversávamos com as vizinhas para trocar o que
tínhamos, pedir emprestado, até ele chegar”, relembra.




Filho de pioneiro e
natural de Mondaí, Ziegfried Bruggemann, de 97 anos, relembra com carinho a
história da família e de Porto Feliz. Seu pai participava e atuava socialmente,
sendo indicado para assumir como prefeito após a renúncia do prefeito eleito da
época. Da infância, Ziegfried lembra que nos primeiros anos de colonização, era
tudo limitado. “Aquela vez era puro mato, hoje já está tudo colonizado. Quem
conheceu aquela época, hoje não conheceria aqui. Evoluiu muito, muitas
conquistas. Na época da guerra, meu pai foi duas vezes preso por ser alemão.
Houve invasões de revolucionários que fugiam do Rio Grande do Sul e buscavam
cobertura aqui no sertão, e outros vinham para conhecer a região. Eles foram
daqui a Dionísio Cerqueira a cavalo, cruzando o mato, porque não tinha
estradas, tinha apenas piques”, lembra.

O pioneiro confirma a história
difundida na região. A madeira era a principal fonte de renda nos primeiros
anos de Porto Feliz, seguida da agricultura.  
“Mondaí praticamente vivia da lavoura, tinha muita madeira também. Os
madeireiros eram de Carazinho, quando começaram a tirar madeira, embalsar, eles
amarravam as madeiras e deixavam na costa do rio esperando a enchente. Quando
dava a enchente, levavam a madeira para negociar e vender. O mínimo de altura
do rio era com 11 palmos. O ponto de balsa era 15 palmos, pelo menos. Tinha uma
estaca enumerada com a quantia da água, para monitorar. Tinha a balsa, que
passava e vinha do Rio Grande do Sul, igual hoje”, destaca.

Ziegfried faz parte de
uma das primeiras famílias a residirem em Porto Feliz, com influência
comunitária e social. O pioneiro pode vivenciar momentos como as primeiras
fontes de energia utilizadas na região. “No começo não era fácil, lembro que
tínhamos uma geladeira a querosene, era muito melindrosa, tinha que estar
cortando o pavio senão não funcionava direito. Depois, o meu pai tinha uma
usina, tinha um motor Mercedes Bens que tocava o gerador que fornecia a
energia, que começava quando escurecia e ia até as 22h30, dava três sinais e
apagava a luz. Todas as famílias tinham dessa mesma energia, quem não tinha era
vela e lampião de querosene. A primeira energia elétrica que recebemos foi do
Rio Grande do Sul, do Rio Guarita. Fizeram uma travessia, do lado de cá e de lá
enterravam altos postes, onde passava a alta tensão por cima do rio. A energia
que temos hoje foi toda formada a partir daí”, lembra o pioneiro. Ao formar sua
família, Ziegfried não teve dúvidas sobre onde passaria a vida: Mondaí. Lugar
onde nasceu, cresceu, desenvolveu sua profissão, conheceu sua esposa e
constituiu família. Ele lembra com carinho do passado que o trouxe até aqui.
“Eu conheci minha esposa aqui, morávamos no Laju, ela de um lado e eu do outro.
Eu tinha uma motocicleta e ia com ela até a travessia do rio, quando tinha
pouca água, eu pulava nas pedras para atravessar e ir ver ela, quando o rio
estava cheio eu passava de barco. Casamos, tivemos seis filhos, três homens e
três mulheres. São diversas lembranças! Eu gosto muito de Mondaí, nasci e quero
morrer aqui”, finaliza. 

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