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Troca de gasolina por etanol pode não ser vantajosa para o consumidor

Última atualização 27 de março de 2022 - 14:14:44

Entre janeiro e fevereiro deste ano, as vendas do etanol
hidratado subiram 26,20%. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria da
Cana de Açúcar (Unica). Na avaliação do diretor técnico da Unica, Antonio de
Padua Rodrigues, isso “É um indicativo da recuperação do consumo do
biocombustível”.

Com o recente reajuste no preço da gasolina de 18,57%, o
etanol pode ser uma alternativa para o abastecimento. A troca, no entanto, pode
não ser vantajosa. É o que afirma o professor de Engenharia de Transporte do
Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), Márcio D'Agosto.

D'Agosto explica que a quantidade de energia existente em um
litro de etanol é diferente da quantidade em um litro de gasolina. “Aí, tem a
famosa relação dos 70%. Significa que um litro de etanol equivale a cerca de
70% do litro da gasolina em termos de conteúdo energético”. Portanto, o preço
do etanol tem que ser menor ou igual a 70% do preço da gasolina. Caso
contrário, o custo-benefício entre os combustíveis não será atrativo para os
consumidores, explicou.

Para calcular, basta dividir o preço do álcool pelo valor da
gasolina. Caso o resultado seja inferior a 0,7, o etanol será uma alternativa
economicamente viável. Por exemplo: caso a gasolina esteja avaliada em R$ 7,40
e o etanol em R$ 5,20, o resultado é de 0,702. Neste cenário (5.2 dividido por
7.4), o etanol é vantajoso.

Preços

O levantamento de preços efetuado pela Agência Nacional do
Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) apurou, na semana compreendida
entre os dias 13 e 19 deste mês, preços máximos de R$ 8,399 para o litro da
gasolina comum e de R$ 7,989 para o litro do etanol hidratado nos postos. “Não
vale a pena”, disse o professor da Coppe. “Não dá 70%”.

Márcio D’Agosto afirmou que não tem vantagem alguma para o
motorista comprar etanol. “Porque ele vai rodar menos quilômetros com um litro
de etanol, vai ter que abastecer com mais frequência e vai acabar gastando
mais. O tanque dele vai acabar mais rápido”. Esse preço do etanol é totalmente
não competitivo com a gasolina, afirmou.

Na semana analisada pela ANP, foram encontrados preços
máximos para o litro da gasolina por estados. No Rio de Janeiro, o valor
atingiu até R$ 8.399; no Maranhão, R$ 8.390; em São Paulo, R$ 8.299; no Piauí,
de R$ 8.297.

O preço mínimo, que chegou a R$ 5.899, foi registrado em São
Paulo.

Em relação ao litro de etanol hidratado, os preços máximos
de R$ 7,989 e de R$ 7,899 foram achados no Rio de Janeiro e no Rio Grande do
Sul, respectivamente. Já o preço mínimo por litro do produto ocorreu no Mato
Grosso e em São Paulo, de R$ 3,979 em ambas as unidades da Federação.

Amenizando gastos

O jornalista Romildo Guerrante usa gasolina no seu
automóvel. Mas, diante do elevado preço do combustível, a saída que encontrou
para amenizar os gastos no atual cenário foi viajar menos. “Eu costumava sair e
dar uma volta até Petrópolis ou Nova Friburgo. Não vou. Não estou indo mais”.
Guerrante disse que não usa etanol porque não vale a pena. “Não há vantagem”,
argumentou.

O microempresário Rômulo Cipriani Costa também prefere a
gasolina ao etanol em seus carros. Para diminuir os gastos, ele deixou de fazer
algumas ações cotidianas, como levar os filhos para a escola de automóvel.
“Estamos indo de bicicleta”. Ele também cortou praticamente todos os passeios.
“Só [ficaram] os que dão para ir de bike”, relatou.

José Paulo Zymmerman é gerente de banco e tem automóvel
movido a gasolina, mas só usa nos fins de semana. Nos dias úteis, anda de
metrô. Para reduzir os gastos com combustíveis, procura “fazer uma direção mais
calma, sem acelerar fundo, pois quando aceleramos muito, o gasto é maior. Mas
se o percurso que tenho que fazer tiver metrô perto, eu sempre dou preferência
ao metrô”.

O aposentado Gilson Munhoz Ribeiro também só usa gasolina.
“O etanol aqui no Rio de Janeiro não compensa, mesmo em tempos normais”.
Confessou que não está fazendo nada diferente para compensar o aumento da
gasolina, a não ser evitar passeios desnecessários. “Mas o resto não mudou”,
destacou.

GNV

O professor da UFRJ, argumentou que o gás natural veicular
(GNV) é bem equivalente à gasolina. Se o preço do metro cúbico do GNV estiver
mais barato que o preço da gasolina, é melhor usar o GNV, sugeriu. Só que para
usar GNV, o motorista tem que fazer uma adaptação no carro, porque não se
compra de fábrica um veículo adaptado para gás. “Ele tem um investimento a ser
feito para colocar o kit GNV. Aí, a questão é em quanto tempo ele vai pagar o
investimento que fez em função do preço do GNV, porque existem vários kit GNV
com preços diferentes, além de diversos tipos e tamanhos de cilindro, que é o
insumo mais caro do kit, para avaliar quanto tempo de retorno ele vai ter para
usar GNV”.

Para D’Agosto, uma coisa é certa. Só vale a pena instalar um
kit GNV quem roda quilometragem diária alta. “Estou falando de gente que roda
250 quilômetros a 300 quilômetros/dia, como os taxistas rodam mais ou menos
hoje”. Ao fazer a adaptação, ele tem que optar entre GNV e gasolina ou GNV e
etanol. O professor indicou ser vantajoso para quem roda muito por dia ter um
kit GNV porque o GNV tem mantido um preço por metro cúbico menor que o da
gasolina e do etanol e ele consegue pagar pelo retorno sobre o investimento
feito em pouco tempo.

Advertiu, ainda, que isso depende da manutenção do preço do
GNV. Se houver reajustes, em função da situação global, da guerra entre Rússia
e Ucrânia, poderá haver aumento só GNV significativo. “Esse aumento vai
impactar não apenas o preço do GNV automotivo, como também do gás natural residencial.
Aí, acabou com a vantagem porque, se esse preço sobe, eu não consigo pagar o
kit que instalei”.

ANP

Procurada pela Agência Brasil, a Agência Nacional do
Petróleo (ANP) informou que os preços dos combustíveis são livres no Brasil,
por lei, desde 2002. São fixados pelo mercado. Não há preços máximos, mínimos,
tabelamento, nem necessidade de autorização da ANP, nem de nenhum órgão público
para que os preços sejam reajustados ao consumidor.

O levantamento de preços da ANP pode ser acessado em https://preco.anp.gov.br/.
O levantamento é semanal e os dados são atualizados às sextas-feiras.

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